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09/11/2010

Vamos de Azul ou Vermelho?


Tanto faz. No estado de permanente daltônismo ideológico em que vivemos, qualquer merda serve.

Nos dias antes da eleição recebi um desse emails corrente incitando as pessoas a vestirem-se de azul no dia do pleito para, entre outras coisas, mostrar que a maioria era AZUL e não VERMELHA, como afirmavam as ditas pesquisas compradas.

Nesses emails corrente, nunca sei o que me chama mais atenção; se é a falta de pudor com a ortografia, ou com os fatos. Por isso vou falar dos fatos, já que ortografia não se discute, se aprende. Extraí do texto e comentei a passagem mais perolática, a tal do azul e vermelho. Entre outras bobagens dizia assim: No dia 03 de outubro, quem não votar em Dilma, saia vestindo Azul. A cor da Paz, da Liberdade e da Verdade. E será um grande recado para essa turma, mesmo se ganharem.”

Pois bem, VERMELHO OU AZUL SÃO A MESMA BOSTA, E NÃO TEM NADA A VER COM PAZ

Primeiro porque azul não é e nunca foi a cor da Paz, da Verdade ou sei lá que outros conceitos fajutos.

Além do mais, já passou há muito tempo a época dessa besteira de “vermelho e azul”, “ameaça comunista e salvação ocidental”. Esse maniqueísmo bobo já não faz sentido nenhum, nem para o PT. Atentem para o fato de que na campanha da Dilma as cores predominantes são outras. O vermelho comunista nem sequer cabe mais na agenda neoliberal capitalista do novo PT de Lula.

E tem mais, Azul é, no Paraná, a cor da campanha do Beto Richa, um demagogo de merda que ninguém deveria apoiar nem para uma eleição de síndico ainda que as cores dele estivessem só na cueca.

Nesta campanha, provavelmente a pior que já tivemos, Azul ou Vermelho dão absolutamente na mesma. Para eleitores tão deploráveis como nós, sem nenhum conhecimento ou posicionamento ideológico, essa liturgia besta de vestir-se com esta ou aquela cor só serve pra optar entre o ruim e o pior. Quer protestar? Saia pelado. Pelo menos é verdadeiro.

16/03/2010

Vamos castrar todo mundo!

Hoje temos que estar altamente capacitados pra tudo. Mas pra ter filhos, basta dar umazinha.

Ouvi na TV que vão castrar quimicamente os argentinos. Antes que alguém se empolgue muito, devo esclarecer que é só para os estupradores.
Acho que tinham que estender esse "benefício" para muito mais gente. E aqui no Brasil.

Veja só este exemplo: Mãe-obesa-mórbida senta no shopping e entope o filho (futuro obeso mórbido) de hamburguer e refrigerante.
Se obesidade mórbida é considerada doença - com tratamento bancado pelo Estado, incluindo redução de estômago-, por que é permitido a essa mãe transformar o filho de 8 anos em uma aberração? Se um pai tortura seu filho com pontas de cigarro e vai preso, porque o mesmo não acontece com uma mãe que transforma seu filho em um obeso diabético? Pessoalmente, eu preferia ser queimado com cigarros.

Tem também a Mãe Motorista Alcoolizada, que fura o sinal com o filho (Motorista Alcoolizado Filho) sentado no banco de trás.
Tem o Pai Prefeito Corrupto, que faz reuniões de pilantragem num churrasco em casa, com o filho (Futuro Corrupto Jr) brincando no gramado.

(Em alguns casos esses dois se juntam e disso resulta o Deputado Motorista Alcoolizado Filho que mata gente a 190km por hora.)

Essa turma está por aí se reproduzindo, no sentido mais literal da palavra. Acho que no Brasil, para não deixar que eles passem adiante o seu "jeitinho" de educar, deviam interditar e castrar esse pessoal. E se a sociedade protetora dos animais reclamasse, sei lá, proponho a lobotomia.

14/03/2010

Mais 2 acidentes aéreos e eu tiro meu brevê de piloto.
Cobertura jornalística dos acidentes aéreos é tão estafante que mais parece Telecurso 2o Grau da pilotagem. A vantagem é que não passa às 6 da manhã.
Nem tudo é só tristeza e chatice num acidente aéreo. As TVs, por exemplo, ganham novo fôlego de notícias - que eram só de Copa do Mundo - e voltam ao ar as simulações feitas por computador, os depoimentos de quem viu uma turbina pegando fogo e telefonemas melodramáticos de repórteres aos parentes dos mortos. E, assim, recomeça também meu telecurso de aviação.

Tubos de Pitot, Transpoder, Controladores de Vôo... Nada mais é segredo para nós, fiel público da TV. Grooving, Fluxo de Combustível e Reverso Esquerdo. Neste último módulo, por exemplo, o assunto que está pegando fogo é Manutenção de Aeronaves. Com um pouco de paciência pra aguentar entre um acidente e outro, você fica sabendo de tudo, porque o conteúdo é tratado com muito profundidade, como no último caso do Airbus 380 da TAM.

A didática é chuchu beleza, e super moderna. Flashes e entradas extraordinárias a cada 15 minutos na programação das TVs, além dos especiais de 45 minutos à noite vão garantindo minha formação aeronáutica.
É como fazer um curso à distância, só que não tem diploma. E é melhor que Telecurso 2o Grau, que só passa às 6h30 da manhã!
Pra quem trabalha de dia, tem as aulas de reforço no jornal das 8. E para quem trabalha até mais tarde - ou matou aula no barzinho assistindo futebol - tem também a revisão no super intensivo do Jornal da Globo.

Isso sem falar no material didático, que é de primeiro mundo! Os jornais publicam excelentes resumos, com quadros explicativos, infográficos e explicações que deixam as apostilas de cursinho no chinelo.

Enfim, com mais dois ou três acidentes tiro meu brevê de piloto. Vão ficar faltando só as aulas práticas e as tais horas de vôo obrigatórias, mas numa dessas eu consigo trocar pelas minhas milhas na TAM.

Love will tears us apart.
É melhor não ter nada, ou ter algo a perder?

Ian Curtis, vocalista do Joy Division, compôs essa música em 1979 (para quem esteve fora do planeta nos últimos 30 anos, Love Will Tears Us Apart é uma música). Gravou um clipe com clima depressivo - onde ele aparece como um autômato repetindo um mantra: "O amor vai nos 'separar'".
Pouco tempo depois ele se enforcou na cozinha de casa, aos 23 anos, e no auge do sucesso. Ian Curtis foi ofuscado pelo seu insight. Talvez não tenha aguentado a luz de sua própria revelação.

Dédalus, o arquiteto grego do labirinto de Creta, prisão do célebre Minotauro, o homem com cabeça de touro - pai mitológico dos chifrudos, já que ele foi preso no labirinto e sua mulher ficou em casa - ficou famoso não só por projetar o labirinto, mas também por ter fabricado um par de asas com o qual conseguiu a façanha de voar.
Na ocasião do seu primeiro vôo Dédalus deu um par de asas a Ícaro, seu filho. Ícaro, o pai mitológico dos imbecis e estabanados, empolgou-se além da conta, e hipnotizado pelo brilho do sol, voou na direção do astro-rei como uma mosca em direção à lâmpada. Teve um fim semelhante: suas asas derretaram e ele morreu esborrachado no chão.

Ícaro, que ganhou asas - e fez uso delas -, morreu. Curtis, que sempre as recusou, morreu também. No entanto a morte de Curtis nos soa poética, e a de Ícaro, patética.
A vida é estranha, e difícil.

22/08/2009

No começo eram cacos de espelho


Nos empurraram uma paixão que ninguém mais quer.

Ontem li no jornal que a América Latina é o maior pólo de expansão automobilística das montadoras européias e americanas. Casualmente, no mesmo jornal, li que Paris está disponibilizando 15 mil novas bicicletas públicas. A exemplo de Barcelona, além dos ônibus, metrôs, táxis, eles têm bicicletas públicas. Peraí, os carros franceses vendem como nunca no Brasil, e na França os coitados estao andando de bicicleta?

Nao é engraçado. Quem conhece sabe que em Barcelona, Londres ou Paris - entre outras capitais européias - andar de carro é um pepino do tamanho de um ônibus enfiado na traseira do seu popular. Você paga pedágio pra circular no centro da cidade, os estacionamentos custam uma fortuna, quase nenhum edifício tem garagem e a gasolina é cara. Por outro lado as cidade dispõem de bicicletas públicas. Ou seja, a mensagem dos governos europeus para seus cidadãos é muito clara: Não usem carros. E de carona: Não comprem carros. Só que essa última é uma mensagem um tanto incômoda para a indústria automobilística, da qual eles são os donos.

É aí que entra o brasileiro, esse povo apaixonado por carros como ele só. Seremos, com prazer, entupidos pelos carros europeus. Nós brasileiros vamos dar uma força para eles, e comprar todos os carros que eles precisam nos vender para poder andar de bicicleta traquilos. Nossa recompensa será congestionar nossas cidades, poluir o ar, enchernos de estradas e depois morrer felizes, de ataque cardíaco, no meio de um engarrafamento.

21/08/2009

Como acabar com a vida de alguém

Existem dois jeitos de acabar com uma vida: o jeito certo e o jeito errado.

Situação 1: minha mulher fica grávida. Aliás, nem precisa ser minha mulher, engravido uma mulher qualquer. Independente de qualquer coisa decidimos abortar. Afinal, não tenho dinheiro, tempo, ou mesmo saco pra ser pai a esta altura da minha vida.
Por lei não podemos abortar, mas quem liga para a lei? Juntamos uns trocados, raspo meu FGTS e fazemos o "procedimento". Pronto, acabei com uma vida!
Agora serei excomungado, não vou mais para o céu, não verei mais a tal mulher - que agora me culpa pela sua infelicidade -, e nunca conhecerei a edificante experiência de ser pai aos 16 anos. Resumindo: estou feliz como nunca. Exceto por minhas economias que foram para o ralo.

Situação 2: minha mulher fica grávida. Aliás, nem precisa ser minha mulher, engravido uma mulher qualquer. Independente de qualquer coisa decidimos que vamos ter o filho. Afinal, por lei, não podemos abortar. Eu nunca liguei muito para a lei, mas neste caso é diferente... Ainda que eu não tenha dinheiro, tempo, ou mesmo saco pra ser pai a esta altura da minha vida. Além do mais a coisa não é tão difícil; podemos juntar uns trocados, rasparei meu FGTS e teremos o nosso filho. Pronto, acabei de novo com uma vida! Agora não serei excomungado (mas serei execrado pela minha sogra porque vivo desempregado). Agora vou para o céu (e também irei preso, cedo ou tarde, por não pagar pensão alimentícia). Não verei mais a tal mulher(aliás, verei; em companhia de uns 3 ou 4 caras diferentes que serão os padrastos do meu filho ao longo da sua infância). E nesse ritmo das coisas conhecerei a edificante experiência de ser avô ainda antes dos 30 anos. Resumindo: estou feliz como nunca (exceto por minhas economias que começaram a sumir agora que meu filho deu pra fumar crack.)

15/09/2008



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O presente.


Ele estava no limite. Eram meados agosto, o que significa que ele estava separado dela há mais de dois meses. Dois meses, e toda sua comunicação resumia-se a três cartas com orelhas de burro e duas ligações de longa distância muito caras.

É verdade que quando ela terminou a faculdade e voltou para aquele buraco de onde viera - e que ela chamava de cidade natal -, e ele para a dele, ela teve que jurar que manteria uma fidelidade incorruptível. (Ela marcará encontros ocasionais, mas só por mera distração.) "Ela permanecerá fiel".

Mas ultimamente ele começou a se preocupar. Tem problemas para dormir à noite e quando consegue, tem sonhos horríveis. Fica acordado na cama, rodando e virando embaixo das cobertas, lágrimas jorrando em seus olhos conforme fantasia sobre ela. O juramento entregue à bebida e ao afago tranqüilizador de algum idiota. Finalmente submetendo-se aos carinhos finais de um sexo entorpecedor. Isso era mais do que a mente humana poderia suportar.

Visões de traição assombrando-o, fantasiando horas a fio durante todo o dia. O abandono sexual permeando seus pensamentos. Niguém entendia como ela era realmente. Ele sim, entendia muito bem. Só ele. Intuitivamente captava o que havia em cada canto e fresta de sua alma. Ele a fez sorrir. Ela precisava dele, e ele não estava lá.

A idéia apareceu na quinta-feira. Ele tinha acabado de lavar e encerar o carro do seu pai por alguns trocados e tinha verificado a caixa postal para ver se havia ao menos uma carta dela. Não havia nada, a não ser uma carta-resposta da companhia telefônica questionando-o a respeito de suas necessidades e opiniões. Ao menos alguém se importava com ele o bastante para escrever.

Era uma carta de outro estado. "Pode-se chegar a qualquer lugar por correspondência", pensou. Então isso o fez perceber! Ele não tinha dinheiro suficiente para viajar e visitá-la. Mas por que não enviar-se pelo correio? Seria incrivelmente simples. Se enviaria num embrulho pelo correio; entrega especial.

No dia seguinte foi ao supermercado para comprar o equipamento necessário. Comprou fita adesiva, uma pistola de grampos e uma caixa de papelão bem groso, de tamanho médio e apropriado para uma pessoa do seu tamanho. Ele concluiu que com um mínimo de bagagem poderia viajar perfeitamente confortável. Algumas aberturas pra o ar, um pouco de água, talvez algum aperitivo para comer durante a noite, e seria provavelmente algo muito próximo a um passeio turístico. Sexta-feira pela tarde ele estava pronto. Estava perfeitamente empacotado e o carteiro concordou em apanhá-lo às três horas.

Dentro do pacote marcado como "Frágil", sentado, meio enrolado e descansando no forro de espuma, ele tinha tudo bem planejado. Tentou visualizar o olhar espantado e feliz no rosto dela quando abrisse a porta e visse o pacote. Ela daria gorjeta ao entregador e então abriria a caixa e finalmente ela o veria em pessoa. Ela o beijaria e então eles assistiriam um filme, ou coisa semelhante. "Se eu tivese pensado nisso antes".

De repente mãos brutas seguraram seu pacote e ele se sentiu carregado para cima. Desembarcou com uma pancada num caminhão e seguiu seu caminho.

Longe dali, ela tinha acabado de ajeitar o cabelo. Tinha sido um final de semana daqueles. Ela precisava se lembrar de não beber tanto. Pelo menos não até cair. "Ainda assim, aquele fulano não se aproveitou tanto...", até tinha sido gentil. Depois que terminou ele disse que mesmo assim ainda a respeitava, que o que aconteceu era muito natural, mas que ele não a amava, até sentia alguma afeição. Mas, enfim, eles era adultos e isso acontecia.

"Ah, quanto esse sujeito poderia ensinar a ele", mas ele parecia ter ficado para trás já há muitos anos.

Sua melhor amiga apareceu pela entrada de serviço, passou pela lavanderia e foi para a cozinha. Tinha essa mania de ir entrando como se a casa fosse sua. "Meu Deus, lá fora está um calor insuportável". "É mesmo, estou até grudenta!" Ela apertou o cinto de seu ropão de algodão com babado de seda. A amiga passou o dedo sobre alguns grãos de sal na mesa da cozinha, lambeu o dedo e fez uma careta. "Talvez eu devesse comer um pouco de sal, mas nunca sei o que faz subir ou descer a pressão".

Ela se levantou da mesa e foi até a pia, onde pegou um frasco de vitaminas coloridas. "Quer uma? Dizem que é melhor do que um bife, tipo danoninho, só que melhor". "Acho que nunca mais vou beber tequila outra vez"

Ela se sentou mais próxima à pequena mesa onde estava o telefone. "Talvez o cara de ontem ligue," e esperou algum olhar da amiga. Como nada surgiu no rosto da outra, prosseguiu: "Meu Deus, ele parecia um polvo. Mãos por toda parte." Ela gesticulou, levantando a os braços para cima num gesto de defesa. "O caso é que, depois de um tempo, você se cansa de lutar, entende? E no fim das contas eu não fiz nada com ele nem na sexta nem no sábado, então eu meio que aliviei e deixei ele fazer o que queria."

Foi aí que o carteiro tocou a campainha da ampla casa. Quando ela abriu a porta ele a ajudou a carregar o pacote para dentro. O carteiro entregou a ela um recibo amarelo e outro verde, assinado, e recolheu 50 centavos de gorjeta que ela havia conseguido na pequena carteira bege de sua mãe que estava num esconderijo.

"O que você acha que é?" perguntou a amiga. Ela ficou de pé com os braços cruzados atrás das costas. Olhou fixamente para o volume de papelão marrom no meio do quarto. "Sei lá."

Dentro do pacote, ele se revirava de exitação ao ouvir as vozes abafadas. A amiga arranhou sua unha na fita adesiva, percorrendo-a até o centro da caixa. "Porque você não olha o endereço do destinatário e vê de quem é?". Ele sentiu seu coração batendo. Ele podia sentir a vibração dos passos. Seria em breve.

Ela andou em volta da caixa e leu a etiqueta com a tinta borrada. É daquele idiotam, disse. Dentro da caixa ele tremia com a expectativa. "Bem, talvez você deva abrir." Ambas tentaram erguer a aba do grampo. "Merda," disse ela, grunhindo. "Ele deve ter lacrado com pregos, aquele imbecil." Elas puxaram o grampo de novo. "Droga, precisa de uma broca pra abrir essa coisa!" Elas puxaram de novo. "Puta que o pariu", disseram juntas, e continuaram de pé, respirando pesadamente ao lado da caixa, dentro da qual ele imaginava se não havia exagerado na resistência do pacote. O esforço dela vai ser recompensado, pensou.

"Porque você não pega uma tesoura?" disse a amiga. Ela correu pra cozinha, mas tudo o que conseguiu encontar foi uma pequena tesoura escolar de pontas arredondadas. Aquilo não serviria. Então se lembrou que seu pai mantinha uma coleção de ferramentas no porão. Ela correu escada abaixo, e quando voltou carregava um enorme estilete metálico na mão. "Isso foi o melhor que eu consegui encontrar." Estava bastante ofegante. "Toma, corta você. Tô morta!", e afundou no sofá.

A amiga tentou abrir uma brecha entre a fita adesiva e a extremidade do grampo no cartão, mas a lâmina era muito grande e não havia espaço suficiente. "Puta que pariu essa caixa!" Ela estava irritada. Depois sorrindo, "Tive uma idéia." "O que?" disse ela. "Apenas olhe," disse a amiga.

Dentro do pacote, transtornado com a excitação e mal conseguindo respirar, ele sentia sua pele pinicar com o calor e seu coração bater na garganta. Seria em breve.

A amiga manteve-se completamente ereta e deu a volta até o outro lado do pacote. Então dobrou os joelhos, agarrou o cortador com as duas mãos, respirou profundamente, e mergulhou a longa lâmina bem no meio do pacote, através da fita adesiva, através do cartão, através do forro, através da espuma, terminando bem no meio da cabeça dele, que se abriu rapidamente, causando pequenos e harmoniosos arcos vermelhos a pulsar levemente no sol da manhã.

21/08/2008

Um Dia de Fúria
"Aí truta, eu quero um sanduba igual que o da foto."

Um Dia de Fúria - filme clássico dos anos 90 -, apresenta um sujeito comum que, num dia qualquer surta completamente e resolve desabafar de um jeito insano toda sua insatisfação contra tudo aquilo que na nossa sociedade é um pé no saco.
O cara, entre outras coisas, desce o sarrafo em dois vileiros punguistas, trapaceia um mendigo profissional e mete chumbo no carrinho de golfe de um velhote playboy. Assim fica difícil não simpatizar com o figura.
Mas uma das melhores partes é quando ele espeta uma metralhadora na cara de um balconista do McDonalds exigindo um sanduíche "igual ao da foto". É sensacional! Isso é algo que todo mundo gostaria de fazer (tirando a parte da metralhadora).
Não há quem possa negar que nunca ficou uma arara olhando para aquele sanduíche murcho, com o queijo grudado na caixinha e, em seguida, olha pra cima e vê uma foto daquele monumento reluzente, com quatro fatias de queijo derretendo e um alface que parece até radioativo de tão verde que é.
Pois eu decidi que amanhã mesmo vou num McDonalds, ou em qualquer outro fastfood que não tenha a infame frase "Imagens meramente ilustrativas" escrita na lateral das fotos do display (no Subway eu já vi que não tem) , só pra ver a cara do atendente quando eu disser que "quero um sanduíche i-dên-ti-co ao da fotografia" E ai do cara se ele disser que "não é foto, é 3D"!
Eu, que a essa altura já terei pago pela comida e estarei com o "Eu tô pagando" na ponta da língua, estarei me sentindo nas alturas, acenando para aquelas pessoas da fila que me apóiam maravilhados, e rindo (ou rosnando) para aquelas outras que, aos cochichos, querem que eu saia logo da frente pra eles pedirem um milkshake.
O gerente que por lei não poderá se negar a me servir (até estudei a tal da lei!) vai suar aquela redinha que eles usam na cabeça, montando artesanalmente um sanduíche igual ao da foto. E eu lá, feliz da vida por trazer justiça a esse mundo tão judiado.
No fim eu termino devolvendo o sanduíche perfeito e dizendo que perdi a fome, que nunca fui tão ultrajado assim, e que só vou ficar mesmo é com as batatas fritas, "a única coisa que presta nesta espelunca".
Ah!, mal posso esperar para sentir o gostinho de exercer a cidadania e os direitos! Viva os dias de fúria!

PS.: Plano B. Se eu perceber que o negócio não vai dar certo e que a coisa vai feder, digo que nem queria mesmo, que sou vegetariano e que ele pode enfiar o sanduíche onde achar melhor. E saio de fininho, ainda que as pessoas em volta pensem, na melhor da hipóteses, que sou um daqueles eco-ativistas defensores dos animais ou, na pior delas, um cara cujo cartão não foi aceito pela máquina.

02/12/2007


Perseguindo a lua ao contrário.
Fiz uma coisa que nunca tinha feito antes. E gostei. É verdade, todos devem fazer, com freqüência, alguma coisa inédita.



A minha novidade de ontem foi bem simples. Estava voltado da locadora de vídeo com a minha filha, passando pelo bairro onde vivi quase toda minha infância.
No caminho ia contando pra ela que "caí daquela árvore", "namorei naquele muro" e "aquela era minha casa, era diferente", quado de repente, olhando pela janela lateral do carro, vimos que a lua estava maravilhosa. Seguimos assim por 3 quadras, achando tudo lindo e ótimo. No som do carro também estava tocando um CD que nunca tinha ouvido antes. E, ao chegar numa esquina, onde por força do caminho nos despediríamos da Lua, fiz algo inédito e contrário ao meu sentido prático de encarar a vida. Esqueci das pessoas que nos esperavam em casa com os DVDs, virei à esquerda e, tomando um rumo contrário, peguei uma rua longa que nos deixou de cara com a Lua. E fomos assim, bem devagarinho, quietos e com os braços pra fora da janela, por quadras e quadras, dois ratinhos hipnotizados pelo queijo parmesão.
Mas a cidade moderna não é amiga dos sentimentos ancestrais, e logo, um muro enorme interrompeu a rua e acabou com nosso passeio.
Fiz então outra coisa realmente inédita. Para assombro da minha filha, engatei a marcha ré, enquanto voltava a música que estava tocando, e assim pudemos voltar aquelas quadras todas vendo a Lua de um jeito bem mais bacana do que pelo retrovisor.
E ainda mais legal do que a Lua, era a cara da Vitória, que aos poucos foi mudando de espanto para tranquilidade, e enfim, excitação. Mais alguns segundos e eu acho que ela teria me pedido para fazermos de novo.
Apesar de termos desrespeitado leis de trânsito e deixado gente esperando, aprendemos juntos que andar pra trás, às vezes, pode levar muito a frente.

24/11/2007

Vamos queimar tudo!
O combustível chama-se Ignorância. E o mundo, graças a Deus está cheio dele.

Nada é pior do que ignorância. Em nome dela as pessoas cometeram, e ainda cometem, as piores barbaridades que este mundo já conheceu. Nada no mundo é pior do que um ser-humano. A não ser, é claro, outro ser-humano.
Por que nós temos essa ânsia furiosa de matar, queimar, destruir, devastar, humilhar, e submeter tudo e todos que estão à nossa volta? Por que somos tão ruins assim, tão perversos?
A resposta para isso talvez esteja no fato de que nem todos somos tão ruins e perversos assim. É mais, apenas uma ínfima parte de nós tem essas características abomináveis. E o problema não está nesse pequenino grupo de seres Miseráveis que as possuem, mas sim num outro grupo, esse bem maior, aliás gigantesco: o resto de nós. Os Ignorantes. Nós, os Ignorantes somos o combustível dos Miseráveis. Nós, em nossa ignorância mantemos vivo o grupo dos Miseráveis. Financiamos suas atividades, justificamos a existência de seus atos, damos sentido às suas atitudes. Somos o organismo do qual eles se alimentam como vírus.
Em nossa ignorância reside o sentido de sua existência. O que seria dos miseráveis se não fossemos nós os Ignorantes? A quem eles conduziriam?
Não é fácil ser um ignorante. É necessário um esforço tremendo para que mantenhamos essa qualidade que nos é tão preciosa. Claro que os Ignorantes natos e experimentados tem muito mais facilidade para o exercício de fechar os olhos. Outros não. Outros tem que fazer um esforço um pouco maior para não enxergar. Mas mesmo assim, são persistentes, não desistem e, por fim, conseguem fazê-lo. Sempre na esperança de não passar por essa provação tão cedo. Rezam para que o mundo os poupe, salvando-os deles mesmos.
Mas essa força de vontade existe apenas para esconder o verdeiro humano que existe em todos nós Ignorantes. Porque todo ser-humano, antes de ser um Ignorante ou um Miserável, é um Egoísta e Preguiçoso. Essa é a nossa essência primordial. Ela nos conduziu às nossas maiores descobertas científicas. Ela nos encaminhou a submeter outros animais e escravizar outros humanos. A preguiça nos faz explorar outros seres, e o egoísmo a privar tudo e todos daquilo que queremos para nós. E todos nós, como autênticos humanos e portanto, Egoístas-Preguiçosos, tomamos parte nessa celebração diária de nossa autenticidade. A diferença é que o Miseráveis fazem aquilo que os Ignorantes não conseguem fazer (mas sim ignorar).
E assim, vivemos felizes em nossa ignorância, essa deusa sagrada que adoramos diária e incessantemente, tendo TVs como altares e revistas semanais como Bíblias, que nos catequizam e nos mantém fiéis à nossa qualidade mais importante: a de ser um humano.

03/08/2007

A penúltima do Lula

Hoje cedo eu ouvi uma ótima no rádio. Que a última do Lula, ou melhor, a penúltima - já que dele sempre se espera uma próxima - era a declaração de que ele não sabia que a crise aérea era tão séria. Dá pra acreditar?
E o pior é que talvez seja verdade, e no fim das contas, tenhamos no poder não só um populista discurso-metafórico, mas também um arremedo daqueles imperadores chineses, que cercados dentro dos muros da Cidade Dourada, não sabiam que fora dela a China já era mais aquela de 200 anos atrás - lembram do filme do Bertolucci, o Último Imperador?
Lula, acorda pra guspir.

10/07/2007

Molho à Mamma Liberata


Revirando minhas coisas descobri uma antiga receita que meu pai fazia com maestria absoluta. De verdade, é maravilhosa. Fica perfeita com raviólis, mas também vai à perfeição com talharim.
Ele chamava esse molho de Mamma Liberata, mas bem podia ser Mamma Mia.
Na sequência eu transcrevo o conteúdo do papel velho e meio engordurado que achei nas minhas gavetas, escrito de punho por ele, uma herança e tanto, memória gastronômica absurdamente boa que me deixa com água na boca - e nos olhos.

*tentei transcrever literalmente, mesmo nas partes onde as manchas de molho fizeram sumir a tinta;
*Alguns portunholismos eu suprimi.

"abre aspas
Molho da Mama Liberata
Preparo para 20 ou 25 porções
*Atenção, o caldo deve preparar-se desde cedo, ou no dia anterior. Demora 2 1/2 horas.

Ingredientes
150rg de bacon
3 linguicinhas (sem pele)
1kg de cebola
1kg de cenoura
1 pimentao sem casca picado
2kg de tomate
2 e 1/2 colheres (sopa) de purê de tomate
2 maços de salsinha
2 maços de cebolinha
5 dentes de alho
1/2 litro de vinho tinto seco
1 punhado de orégano
1 colher (sopa) de açúcar
3 xícaras de funghi seco*** imprescindível
3 folhas de louro
300gr de músculo para o caldo
sal a gosto


PROCESSANDO OS INGREDIENTES
É idêntico ao de qulaquer molho vermelho.
Darei dicas apenas de como processar alguns dos alimentos para que fique mais gostoso.
•Cebola: cortar bem miúda
•Tomate: Tirar a pele e picar bem miúdo
Cenoura: cortar em cruz, na longitudinal, e depois fatiar não muito fino (sei lá, 5mm)
•Funghi Seco: coloque-os numa leitera e cubra com água quente. Deixe por 10 minutos. Reserve a água para usar no molho.
•O músculo deve ferver 2 horas em panela de pressão com 1 cebola, sal, as ervas, o louro. O caldo resultante é dos deuses.

O MOLHO
*Use uma panela grande pois ela vai ser a mesma até o final*
1. Frite o bacon e, em seguinda a linguicinha;
2. Inclua a cenoura (ela demora mais apara amolecer);
3. Inclua a cebola e deixe dorar;
4.Inclua o pimentão;
5. Inclua o alho
6. Inclua o funghi (só o funghi. A agua vc guarda pra depois)
7. Inclua o tomate (agora deixe por um tempo para amolecer, tipo uns 10 minutos)
8. Adicione o purê de tomate
9. Adicione a água do funghi
10. Adicione a salsinha e a cebolinha
11. cubra com o caldo de carne
12. adicione 1/3 do vinho

Deixe por uns 10 minutos e, em seguida, adicione o SAL e ORÉGANO.

Deixe em fogo baixo, com separador (para não queimar o fundo) por 2 horas, incluindo, aos poucos, o resto do caldo de carne e do vinho.

Enquanto isso morra de vontade de comer uns raviolis à Mamma Liberata.

Ciao Caro.
com Piacere,
Norberto
"fecha aspas

Valeu pai, por essa e por outras tantas.


06/07/2007


"Ô meu Deus!,
pra que serve uma praça!?"

Desabafo de um motorista curitibano.



Recebi este email de um motorista-curitibano indignado com a atenção que se deu ao assunto pracinha do Batel e à controvérsia gerada pela sua semi-demolição para dar lugar a uma rua.

"ABRE ASPAS
(...) Eu não entendo essa gentinha baderneira e do contra, que passa o seu tempo tentando mudar o que está bom. Querendo ir contra aquilo que TODO MUNDO quer! Sim, porque todo mundo que eu conheço tem carro, anda de carro. Fala sério, quem é que hoje anda à pé? Até o marido da minha empregada tem um carro!

A última desses banderneiros é querer convencer as pessoas de que uma pracinha inútil é mais importante do que uma boa rua. O que é que essa gente vê de tão bom numa praça?!
E o que eu não entendo é essa atitude vinda dos nobres moradores do Batel, gente chique e distinta. Eu compreenderia se viesse daquele povo do Uberaba ou Parolin, que odeiam suas casinhas de meia-tigela, ou pior, nem tem casa! Por isso vão matar o tempo nas praças, esses lugares sem graça dos quais, nós curitibanos, temos medo porque são abertas demais e não tem seguranças de terno preto e walkie-talkie. Além do mais, têm cheiro de xixi e são cheias de maloqueiros. Essa gentinha quer praças mas nem consegue fazer praças que prestem. Espaço social, ah por favor! Isso é papo de quem não tem um bom apartamento no qual passar todo o tempo em que não está no shopping ou no carro, ou no carro a caminho do shopping. Nós curitibanos gostamos de ficar em casa. (...)

(...) Pessoas não precisam de praças! vão trabalhar seus vagabundos! E tentem comprar um carro, usado que seja.
Nós e nossos carros precisamos de ruas! Ruas cada vez mais largas porque não temos muita habilidade para dirigir e gostamos de andar no meio das faixas para não bater o retrovisor.
E melhor ainda, deveriam detinar ruas exclusivamente para carros, RUAS SEM ÔNIBUS. Pois os ônibus se acham donos da rua, mas são uma praga da qual morremos de medo pois, bem maiores do que nós, podem nos danificar seriamente numa batida. Preferimos colidir com coisas que se danificam mais que nossos carros; pessoas, por exemplo. Ou então esse motoboys que vivem drogados.

Por isso, mesmo gostando da pracinha do Batel, preferimos ter uma rua mais larga para passar com o carro do que uma praça que só serve para comprarmos flores e jornal.
E, cá entre nós, francamente, a dona da floricultura que arranje outro lugar para vender suas flores, ou melhor, que entregue a domicílio. Porque só tem uma coisa melhor do que andar de carro: é esperar o delivery trancado dentro de casa.
FECHA ASPAS"

01/07/2007


Código 990 de Dewey: A classificação bibliotecária para "Oceania" é a mesma de "Mundos extra-terrestres"!
O pior é que é verdade.



Em 1876 Melvin Dewey publicou Classification and subject Index for Cataloguing, a obra definitiva para catalogar livros, conhecida também como Sistema Decimal de Dewey. Esse sistema é usado até hoje e é considerado praticamente universal.

Nessa extensa classificação o código 990 designa Oceania e Mundos extra-terrestres. Dá pra entender que, nos fins do século 19, a Oceania fosse - senão outro mundo - no mínimo um fim de mundo. Deve ser por isso que Dewey colocou os autralianos e neozelandeses no mesmo balaio junto com marcianos e venuzianos.

Alguns dirão que esse cara - se não estivesse morto e enterrado -, assim como seu célebre sistema - esse sim, bem vivo - estão totalmente defasados. Eu não. Dewey era um visionário! A Oceania, em especial a Nova Zelândia, não fazem parte de mundo que nós brasileiros conhecemos.

Hoje, falando com um amigo brasileiro que mora na Nova Zelândia, pude constatar que esse lugar é sim outro planeta. E é habitado por criaturas muito estranhas para nós , e não estou falando de elfos ou coisa pareceida. Estão a apenas 11 mil quilômetros de distância, mas vistos através do nosso telescópio desfocado pela brasilidade eles estão a anos-luz da nossa realidade. Seu sotaque é esquisito e seus hábitos, inexplicáveis.

Seus dirigentes conseguem sobreviver sem desviar verba e não é raro ver um político ir para o trabalho de bicicleta - ainda que vestindo terno e gravata. Lá os poderosos dão o exemplo, não o cobram. Espantoso.

Os órgãos públicos sobrevivem sem alimentar-se da burocracia. Aliás isso denota também que seus servidores são uma espécie de super-seres. Apenas 10 deles fazem o trabalho que 100 brasileiros fariam aqui. E num tempo 10 vezes mais curto. E o mais incrível é que mesmo assim existe emprego para todos.

Suas motivações também são muito estranhas. Eles utilizam os poucos carros que têm como meio transporte e não como símbolo de status. Obviamente que os astronautas brasileiros ,quando pousam por lá, tomam como primeira providência comprar uma Mitsubishi Pajero. Fazem isso para não sufocar no ar extra-terreno.

E pra completar, vem a melhor parte, brasileiros na Nova Zelândia são como o Superman fora de Kripton: Adquirem super poderes e ficam invulneráveis. Começa pelo fato de poderem comprar uma Pajero em apenas 4 meses de trabalho. Termina com o fato de poderem roubar (perdão, pegar sem pagar) jornais nos quiosques abertos da rua e não serem pegos.

Agradeço ao Felipe pelo relato inspirador sobre a NZ. Ainda assim acho que vou ficar no Brasil. (porque não acredito sequer que o homem tenha ido à Lua, quem dirá para um lugar tão longínquo quanto esse)
"Posso ter uma opinião por você?"

Essa frase eu ouvi na banca de revistas do japonês, hoje de manhã, enquanto assistia na TV dele às últimas voltas da F1.

A mocinha entrou na banca, prancheta em punho, e perguntou se ele era contra ou a favor do aborto. "Estou colhendo assinaturas". Talvez o japonês nem respondesse, já que também estava assistindo a corrida, mas bastaram 5 segundos de silêncio dele para que ela, toda animada, saísse dizendo "Posso ter essa opinião por você?" E desta vez, sem dar chance de resposta, soletrou enquanto escrevia na prancheta, C - O - N - T - R - A.
Mas o melhor mesmo foi o arremate "Você não é budista, é?" E o japonês, sem desgrudar do Lewis Hamilton que caçava o Massa a apenas 2 segundos de diferença, disse não.
E eu devo ter a palavra aborto escrita na testa porque ela me ignorou solenemente, apesar de estarmos só nós 3 na banquinha. Melhor assim, porque se ela sugerisse ter uma opinião por mim eu, certamente, ia parar de assistir a corrida.

30/06/2007


Porco não se cria dentro de casa.
Como viramos (ou não conseguimos deixar de ser) o chiqueiro dos outros.

Você não encontra suinocultura ou pecuária na Dinamarca. É proibido, e é simples ver porque. Pense, você criaria porcos na sala de casa ou então na cozinha? Eles também não. Para isso existe o Brasil. Ou seja, nós somos o chiqueiro dos Dinamarqueses, o estábulo dos holandeses, o galinheiro dos australianos.
Que tristeza constatar que o que alguns chamam de "milagre econômico", ou "balança comercial favorável" ou ainda "abertura de mercados externos" na verdade é só a manutenção de um sistema econômico com nos mantém como o criadeiro dos europeus e americanos.
Um quilo de carne porco usa 3 mil litros de água em seu processo de produção; um porco defeca 10 vezes mais que uma pessoa; só em Santa Catarina a população de porcos é proporcional a 9 vezes a de humanos... Como dizem os americanos: "do the math". E nós aqui, achando tudo ótimo.
Os porcos que me desculpem, e também as vacas e as galinhas, afinal eles nem tem culpa de nada. A culpa é de outro gado que os estrangeiros vem criando aqui há muito tempo: nós.

New Wave, Bossa Nova, Nouvelle Vague
Tudo novo,
tudo velho,
tudo ótimo.


De uns tempos pra cá descobri o Nouvelle Vague. Não estou falando do movimento francês dos anos 60. Essa nouvelle Nouvelle é um grupo musical francês de dois caras (Marc Collin e Olivier Libaux) que souberam mesmo como renovar o velho. Essa dupla faz um som excelente rearranjando músicas famosas, (algumas nem tanto) dos anos 80, versando exclusivamente o new wave e o punk. E melhor ainda, a influência de bossa nova é da pesada. Inclusive eles arregimentaram 8 mulheres, entre elas uma brasileira, para os vocais.

Bossa Nova, New Wave, Nova Onda, Nouvelle Vague. É muita coisa nova pro meu gosto, mas eu gosto. De um jeito velho eles souberam dar um ar de novidades aos news, novas e nouvelles que já ficaram velhos.

Pra quem curte dos famosos Joy Division, Dead Kennedys, Blondie, Echo and the Bunnymen e Clash, até os obscuros, Lords of the New Church, é um prato cheio! Aliás, assitir a um clipe do "Lords", isso sim é um prato cheio. Procurem no Youtube e divirtam-se.

E com o perdão dos puristas: o Nouvelle Vague deixa as versões - na sua maioria esmagadora - melhores que nos formatos originais. Nouvelle kicks!
Claro, impossível não lembrar dos lendários 30 segundos de Love Will Tears Us Apart no spot de rádio do finado Sucatão e não sentir remorso por essa traição, mas ouvir a mesma música na versão bossa'n roll do Nouvelle Vague é uma experiência e tanto.

Comprem, baixem, roubem, mas ouçam. {falei comprem antes de baixem e roubem para ser politicamente correto}

Discografia:
Nouvelle Vague (2004),
Bandè a Part (2006),
Late Night Tales (2007)

Abaixo, dois momentos bem ilustrativos. No primeiro, a regravação de Too Drunk to Fuck, do Dead Keneddys. No segundo, Dance With Me, do Lords Of The New Church, uma banda inglesa obscura, formada por uns caras que certamente estão no topo da lista dos mais bizarros do século.