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14/03/2010


Love will tears us apart.
É melhor não ter nada, ou ter algo a perder?

Ian Curtis, vocalista do Joy Division, compôs essa música em 1979 (para quem esteve fora do planeta nos últimos 30 anos, Love Will Tears Us Apart é uma música). Gravou um clipe com clima depressivo - onde ele aparece como um autômato repetindo um mantra: "O amor vai nos 'separar'".
Pouco tempo depois ele se enforcou na cozinha de casa, aos 23 anos, e no auge do sucesso. Ian Curtis foi ofuscado pelo seu insight. Talvez não tenha aguentado a luz de sua própria revelação.

Dédalus, o arquiteto grego do labirinto de Creta, prisão do célebre Minotauro, o homem com cabeça de touro - pai mitológico dos chifrudos, já que ele foi preso no labirinto e sua mulher ficou em casa - ficou famoso não só por projetar o labirinto, mas também por ter fabricado um par de asas com o qual conseguiu a façanha de voar.
Na ocasião do seu primeiro vôo Dédalus deu um par de asas a Ícaro, seu filho. Ícaro, o pai mitológico dos imbecis e estabanados, empolgou-se além da conta, e hipnotizado pelo brilho do sol, voou na direção do astro-rei como uma mosca em direção à lâmpada. Teve um fim semelhante: suas asas derretaram e ele morreu esborrachado no chão.

Ícaro, que ganhou asas - e fez uso delas -, morreu. Curtis, que sempre as recusou, morreu também. No entanto a morte de Curtis nos soa poética, e a de Ícaro, patética.
A vida é estranha, e difícil.

08/01/2010

Iggy Pop, Tarantino, Indie... tudo junto e muito bom.

Ontem, no trânsito ouvi no rádio, na Mundo Livre, uma banda chamada Kasabian. A música se chamava Fire, uma mistura bacana que começava com algo parecido com Iggy Pop e evoluía pra um estilo LCD Soundsystem. Muito boa a combinação da música.
Mas como todas as bandinhas novas de hoje, achei que essa podia ser mais uma fraude de uma música só. E pra piorar, os integrantes podiam ter cara de emos, tipo NXZero. Resolvi conferir e procurei no YouTube. Não é que dei de cara com uma banda de atitude, dona de um clipe porrada, tarantinesco, até meio parecido no estilo com o clássico Push the Tempo, do FatBoy Slim. Segue aí o Kasabian, Fire:



15/09/2008



clique para ouvir.
O presente.


Ele estava no limite. Eram meados agosto, o que significa que ele estava separado dela há mais de dois meses. Dois meses, e toda sua comunicação resumia-se a três cartas com orelhas de burro e duas ligações de longa distância muito caras.

É verdade que quando ela terminou a faculdade e voltou para aquele buraco de onde viera - e que ela chamava de cidade natal -, e ele para a dele, ela teve que jurar que manteria uma fidelidade incorruptível. (Ela marcará encontros ocasionais, mas só por mera distração.) "Ela permanecerá fiel".

Mas ultimamente ele começou a se preocupar. Tem problemas para dormir à noite e quando consegue, tem sonhos horríveis. Fica acordado na cama, rodando e virando embaixo das cobertas, lágrimas jorrando em seus olhos conforme fantasia sobre ela. O juramento entregue à bebida e ao afago tranqüilizador de algum idiota. Finalmente submetendo-se aos carinhos finais de um sexo entorpecedor. Isso era mais do que a mente humana poderia suportar.

Visões de traição assombrando-o, fantasiando horas a fio durante todo o dia. O abandono sexual permeando seus pensamentos. Niguém entendia como ela era realmente. Ele sim, entendia muito bem. Só ele. Intuitivamente captava o que havia em cada canto e fresta de sua alma. Ele a fez sorrir. Ela precisava dele, e ele não estava lá.

A idéia apareceu na quinta-feira. Ele tinha acabado de lavar e encerar o carro do seu pai por alguns trocados e tinha verificado a caixa postal para ver se havia ao menos uma carta dela. Não havia nada, a não ser uma carta-resposta da companhia telefônica questionando-o a respeito de suas necessidades e opiniões. Ao menos alguém se importava com ele o bastante para escrever.

Era uma carta de outro estado. "Pode-se chegar a qualquer lugar por correspondência", pensou. Então isso o fez perceber! Ele não tinha dinheiro suficiente para viajar e visitá-la. Mas por que não enviar-se pelo correio? Seria incrivelmente simples. Se enviaria num embrulho pelo correio; entrega especial.

No dia seguinte foi ao supermercado para comprar o equipamento necessário. Comprou fita adesiva, uma pistola de grampos e uma caixa de papelão bem groso, de tamanho médio e apropriado para uma pessoa do seu tamanho. Ele concluiu que com um mínimo de bagagem poderia viajar perfeitamente confortável. Algumas aberturas pra o ar, um pouco de água, talvez algum aperitivo para comer durante a noite, e seria provavelmente algo muito próximo a um passeio turístico. Sexta-feira pela tarde ele estava pronto. Estava perfeitamente empacotado e o carteiro concordou em apanhá-lo às três horas.

Dentro do pacote marcado como "Frágil", sentado, meio enrolado e descansando no forro de espuma, ele tinha tudo bem planejado. Tentou visualizar o olhar espantado e feliz no rosto dela quando abrisse a porta e visse o pacote. Ela daria gorjeta ao entregador e então abriria a caixa e finalmente ela o veria em pessoa. Ela o beijaria e então eles assistiriam um filme, ou coisa semelhante. "Se eu tivese pensado nisso antes".

De repente mãos brutas seguraram seu pacote e ele se sentiu carregado para cima. Desembarcou com uma pancada num caminhão e seguiu seu caminho.

Longe dali, ela tinha acabado de ajeitar o cabelo. Tinha sido um final de semana daqueles. Ela precisava se lembrar de não beber tanto. Pelo menos não até cair. "Ainda assim, aquele fulano não se aproveitou tanto...", até tinha sido gentil. Depois que terminou ele disse que mesmo assim ainda a respeitava, que o que aconteceu era muito natural, mas que ele não a amava, até sentia alguma afeição. Mas, enfim, eles era adultos e isso acontecia.

"Ah, quanto esse sujeito poderia ensinar a ele", mas ele parecia ter ficado para trás já há muitos anos.

Sua melhor amiga apareceu pela entrada de serviço, passou pela lavanderia e foi para a cozinha. Tinha essa mania de ir entrando como se a casa fosse sua. "Meu Deus, lá fora está um calor insuportável". "É mesmo, estou até grudenta!" Ela apertou o cinto de seu ropão de algodão com babado de seda. A amiga passou o dedo sobre alguns grãos de sal na mesa da cozinha, lambeu o dedo e fez uma careta. "Talvez eu devesse comer um pouco de sal, mas nunca sei o que faz subir ou descer a pressão".

Ela se levantou da mesa e foi até a pia, onde pegou um frasco de vitaminas coloridas. "Quer uma? Dizem que é melhor do que um bife, tipo danoninho, só que melhor". "Acho que nunca mais vou beber tequila outra vez"

Ela se sentou mais próxima à pequena mesa onde estava o telefone. "Talvez o cara de ontem ligue," e esperou algum olhar da amiga. Como nada surgiu no rosto da outra, prosseguiu: "Meu Deus, ele parecia um polvo. Mãos por toda parte." Ela gesticulou, levantando a os braços para cima num gesto de defesa. "O caso é que, depois de um tempo, você se cansa de lutar, entende? E no fim das contas eu não fiz nada com ele nem na sexta nem no sábado, então eu meio que aliviei e deixei ele fazer o que queria."

Foi aí que o carteiro tocou a campainha da ampla casa. Quando ela abriu a porta ele a ajudou a carregar o pacote para dentro. O carteiro entregou a ela um recibo amarelo e outro verde, assinado, e recolheu 50 centavos de gorjeta que ela havia conseguido na pequena carteira bege de sua mãe que estava num esconderijo.

"O que você acha que é?" perguntou a amiga. Ela ficou de pé com os braços cruzados atrás das costas. Olhou fixamente para o volume de papelão marrom no meio do quarto. "Sei lá."

Dentro do pacote, ele se revirava de exitação ao ouvir as vozes abafadas. A amiga arranhou sua unha na fita adesiva, percorrendo-a até o centro da caixa. "Porque você não olha o endereço do destinatário e vê de quem é?". Ele sentiu seu coração batendo. Ele podia sentir a vibração dos passos. Seria em breve.

Ela andou em volta da caixa e leu a etiqueta com a tinta borrada. É daquele idiotam, disse. Dentro da caixa ele tremia com a expectativa. "Bem, talvez você deva abrir." Ambas tentaram erguer a aba do grampo. "Merda," disse ela, grunhindo. "Ele deve ter lacrado com pregos, aquele imbecil." Elas puxaram o grampo de novo. "Droga, precisa de uma broca pra abrir essa coisa!" Elas puxaram de novo. "Puta que o pariu", disseram juntas, e continuaram de pé, respirando pesadamente ao lado da caixa, dentro da qual ele imaginava se não havia exagerado na resistência do pacote. O esforço dela vai ser recompensado, pensou.

"Porque você não pega uma tesoura?" disse a amiga. Ela correu pra cozinha, mas tudo o que conseguiu encontar foi uma pequena tesoura escolar de pontas arredondadas. Aquilo não serviria. Então se lembrou que seu pai mantinha uma coleção de ferramentas no porão. Ela correu escada abaixo, e quando voltou carregava um enorme estilete metálico na mão. "Isso foi o melhor que eu consegui encontrar." Estava bastante ofegante. "Toma, corta você. Tô morta!", e afundou no sofá.

A amiga tentou abrir uma brecha entre a fita adesiva e a extremidade do grampo no cartão, mas a lâmina era muito grande e não havia espaço suficiente. "Puta que pariu essa caixa!" Ela estava irritada. Depois sorrindo, "Tive uma idéia." "O que?" disse ela. "Apenas olhe," disse a amiga.

Dentro do pacote, transtornado com a excitação e mal conseguindo respirar, ele sentia sua pele pinicar com o calor e seu coração bater na garganta. Seria em breve.

A amiga manteve-se completamente ereta e deu a volta até o outro lado do pacote. Então dobrou os joelhos, agarrou o cortador com as duas mãos, respirou profundamente, e mergulhou a longa lâmina bem no meio do pacote, através da fita adesiva, através do cartão, através do forro, através da espuma, terminando bem no meio da cabeça dele, que se abriu rapidamente, causando pequenos e harmoniosos arcos vermelhos a pulsar levemente no sol da manhã.

08/09/2007

Shows que eu não fui.
U2 + Arcade Fire = Joy Division



Nas minhas andanças pelo YouTube acabei descobrindo este vídeo, que recomendo fortemente pra todos que gostam de música boa.
Love Will Tears Apart é um hino mítico criado pelo Joy Divison nos anos 80 que dura até hoje. Já foi regravada milhões de vezes e é uma música que quanto mais o tempo passa, melhor fica.
U2 é uma banda mítica criada nos anos 80 que, ainda que não fique melhor com o passar dos anos, também dura até hoje. Já o Arcade Fire é uma sacolada de pirados, mistura de Família Lima com Oasis, que manda muito bem mas não sei até quando vai durar.
Pois bem, no show mostrado neste vídeo, todos os mencionados acima se encontraram. O U2 costuma dar uma palhinha de Love Will Tears Apart em seus shows, geralmente só um fragmento incidental dentro de alguma outra de suas músicas. Mas desta vez, junto com o Arcade Fire, criaram um dos momentos mais arrepiantes que eu já vi em shows. Confira no vídeo e depois me diga.

30/06/2007


New Wave, Bossa Nova, Nouvelle Vague
Tudo novo,
tudo velho,
tudo ótimo.


De uns tempos pra cá descobri o Nouvelle Vague. Não estou falando do movimento francês dos anos 60. Essa nouvelle Nouvelle é um grupo musical francês de dois caras (Marc Collin e Olivier Libaux) que souberam mesmo como renovar o velho. Essa dupla faz um som excelente rearranjando músicas famosas, (algumas nem tanto) dos anos 80, versando exclusivamente o new wave e o punk. E melhor ainda, a influência de bossa nova é da pesada. Inclusive eles arregimentaram 8 mulheres, entre elas uma brasileira, para os vocais.

Bossa Nova, New Wave, Nova Onda, Nouvelle Vague. É muita coisa nova pro meu gosto, mas eu gosto. De um jeito velho eles souberam dar um ar de novidades aos news, novas e nouvelles que já ficaram velhos.

Pra quem curte dos famosos Joy Division, Dead Kennedys, Blondie, Echo and the Bunnymen e Clash, até os obscuros, Lords of the New Church, é um prato cheio! Aliás, assitir a um clipe do "Lords", isso sim é um prato cheio. Procurem no Youtube e divirtam-se.

E com o perdão dos puristas: o Nouvelle Vague deixa as versões - na sua maioria esmagadora - melhores que nos formatos originais. Nouvelle kicks!
Claro, impossível não lembrar dos lendários 30 segundos de Love Will Tears Us Apart no spot de rádio do finado Sucatão e não sentir remorso por essa traição, mas ouvir a mesma música na versão bossa'n roll do Nouvelle Vague é uma experiência e tanto.

Comprem, baixem, roubem, mas ouçam. {falei comprem antes de baixem e roubem para ser politicamente correto}

Discografia:
Nouvelle Vague (2004),
Bandè a Part (2006),
Late Night Tales (2007)

Abaixo, dois momentos bem ilustrativos. No primeiro, a regravação de Too Drunk to Fuck, do Dead Keneddys. No segundo, Dance With Me, do Lords Of The New Church, uma banda inglesa obscura, formada por uns caras que certamente estão no topo da lista dos mais bizarros do século.